O Calvinismo segundo um Pentecostal.

Por Clóvis Gonçalves

Introdução

O movimento pentecostal geralmente foi visto como não calvinista e superficialmente descrito como arminiano. Por ser associado a igrejas tradicionais, em geral cessacionistas, o calvinismo sofre no meio pentecostal de uma imagem negativa, agravada por representações malfeitas dos pontos distintivos da soteriologia dos reformadores. Por outro lado, o arminianismo é associado ao movimento de santidade wesleyano, que exerceu influência no pentecostalismo, portanto não sofre com esse estigma. Embora o arminianismo jamais tenha sido abraçado de forma refletida e o calvinismo tenha sempre sido rejeitado de forma preconceituosa, as igrejas pentecostais são tidas como arminianas.
Nos últimos anos, porém, essa realidade está mudando com uma crescente minoria se voltando para um estudo teológico mais consistente, tendo contato com expoentes contemporâneos da teologia reformada e acesso a obras de teólogos do passado, até então desconhecidas por ela. Como as principais obras teológicas são calvinistas, o pentecostal despertado para o conhecimento teológico – em geral jovens insatisfeitos com a pouca ênfase doutrinária e falta de profundidade teológica dos púlpitos de suas igrejas – tem descoberto a fé reformada e até se declarado reformado.

Isto tem provocado reações fortes tanto no meio onde estão como nos círculos reformados. Muitos pentecostais, não tendo ainda estudado o calvinismo, não entendem como um dos seus pode crer em absurdos tais como o de que um não predestinado pode ir para o inferno mesmo aceitando a Cristo enquanto que outro, sendo predestinado, pode levar uma vida inteira de pecado e ser salvo blasfemando contra Deus. Não se dando conta de que isso não é calvinismo, a pressão é para que saiam do meio deles. O outro lado reage, dizendo que a fé reformada é incompatível com a crença na atualidade dos dons espirituais e que, a menos que primeiro reneguem essa crença, jamais poderão professar fé nas doutrinas da graça. Alguns cedem a essa pressão e abandonam o movimento pentecostal, ao qual, muitas vezes, passam a hostilizar. Felizmente, alguns poucos são encorajados tanto por pentecostais interessados no amadurecimento teológico do movimento, como por reformados abertos à atualidade dos dons espirituais, a permanecerem onde estão. É o caso deste autor. Há quinze anos, descobri e abracei as chamadas doutrinas da graça enquanto servia numa igreja pentecostal, da qual nunca precisei sair.

Este artigo é dirigido especialmente aos pentecostais que não entendem a crescente aceitação da teologia reformada em seu meio e também aos que acham que entendem, acreditando que a causa é o desconhecimento da teologia arminiana clássica no meio pentecostal e que mais Armínio resultará em menos Calvino (quando o resultado pode ser bem o contrário, se o conselho de Armínio para que se leia Calvino for seguido).

Como um pentecostal que se tornou calvinista pode justificar a sua soteriologia aos seus irmãos? Penso que o primeiro passo é esclarecendo-os a partir do que a Bíblia diz sobre os pontos de sua fé. Exemplificarei com uma declaração da Escritura:

“Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16).

Os Cinco Pontos do Calvinismo

Primeiramente, consideremos que Paulo está falando de salvação e condenação. No início do capítulo, Paulo diz que preferia ser “separado de Cristo” em favor de seus irmãos (9:3). Em seguida, diz que Deus,“querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição” (9.22). Enquanto que a outros Ele quis dar “a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão” (9.23) e, finalmente, ele conclui fazendo referência à “justificação… que decorre da fé” (9:30). Portanto, o que não depende do homem é a misericórdia divina para salvar o pecador.

É dito, pois, que a salvação “não depende de quem quer ou de quem corre”. Em outras palavras, não depende da vontade do homem, nem de seu esforço. Antes de provocar contrariedade, essa declaração deveria trazer ânimo. Por causa do pecado, a vontade do homem está escravizada pela sua natureza caída e inclinada para as coisas más e, se deixado a si mesmo, o homem nunca desejará o Bem. A Queda tornou-o incapaz de qualquer feito que o torne aceitável diante do Deus Santo. À pergunta de Jó“Seria, porventura, o mortal justo diante de Deus?” (Jó 4.17), Paulo responde que “não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10) e que “é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus” (Gl 3.11). Esta doutrina é chamada de depravação total pelos reformados e simplesmente declara a absoluta incapacidade do homem de fazer o que quer que seja para obter o favor divino.

Neste estado, para que o homem seja salvo, é absolutamente necessário “usar Deus a sua misericórdia”.Como todos os homens estão igualmente na miséria do pecado e só alguns são salvos, decorre que uma escolha é feita. Poucos versos antes, o apóstolo faz referência a ela ao explicar que “ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama)” (9.11). Sobre a natureza desta escolha, convém notar que ela é soberana, ou seja, é “por aquele que chama”. E que ela é eterna, ou seja, feita quando”ainda não eram os gêmeos nascidos”. Finalmente, é uma eleição individual e não corporativa. Expressões como “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” (9:6), “não eram os gêmeos nascidos”(9:11), “amei Jacó, porém me aborreci de Esaú” (9:13) e “tem ele misericórdia de quem quer” (9:18), sugerem fortemente que Paulo está tratando de indivíduos e não de uma coletividade amorfa. Esta doutrina é conhecida como eleição incondicional, embora seja melhor compreendida como eleição soberana e graciosa.

Antes de abordar os demais pontos da doutrina da graça, convém considerar uma implicação da salvação depender de Deus e não do homem: a sua certeza. Se dependesse do homem, a salvação não seria apenas incerta, seria impossível. Mas, como depende de Deus, ela não é apenas possível, mas certa. Dizendo de uma outra forma, nenhum dos eleitos perecerá, não simplesmente pelo fato de serem eleitos, mas porque a Trindade assegurará todos os meios necessários e infalíveis para a sua realização. Vejamos como isso acontece na prática.

Para ser possível “usar Deus a sua misericórdia”, Sua justiça tinha que ser satisfeita, “para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3:26). Isto quer dizer que um preço precisava ser pago, uma dívida precisava quitada. “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Ter Cristo morrido por nós não significa apenas que morreu em nosso favor, mas que morreu em nosso lugar, “tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós… removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl 2.14). A morte de Cristo foi intencionada para pagar completamente a dívida daqueles por quem Ele morreu. Embora o valor de Seu sangue seja suficiente para pagar os pecados do mundo todo, Sua morte foi intencionada em favor dos escolhidos de Deus, tornando a salvação deles não apenas possível, mas certa. Esta é a difícil, mas bendita, doutrina da expiação limitada ou, como muitos preferem, redenção particular.

A expressão “usar Deus a sua misericórdia” implica que Deus não assume simplesmente uma atitude de misericórdia passiva, provendo os meios de salvação e deixando por conta do homem apropriar-se dela. Já vimos que, se Ele fizesse isso, ninguém se salvaria e por isso é uma bênção o fato de que “não depende de quem quer ou de quem corre”. Deus mesmo, pelo Seu Espírito, aplica no pecador eleito os benefícios, chamando-os para Si. Paulo fala “daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28), acrescentando que “aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30). Esse chamado é segundo o propósito eterno de Deus e tem como objetos os que foram predestinados para a salvação. Por isso é referido como graça irresistível ou, mais acertadamente, de chamada eficaz.

Finalmente, a salvação não depender da vontade ou do esforço humano, mas de Deus usar Sua misericórdia, implica uma certeza inabalável: nenhum pecador que foi eleito pelo Pai, remido pelo Filho e chamado pelo Espírito Santo, irá perder a salvação recebida. A Trindade Santa está se encarregando disso. “Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”(Rm 8.38–39). Esta doutrina é chamada de perseverança dos santos, mas deve ser entendida como preservação dos santos, pois é Deus quem guarda o tesouro e preserva aqueles por quem Cristo morreu.

Conclusão

Quando um pentecostal se diz calvinista, não está afirmando absurdos sobre Deus e a salvação, mas expressando convicções obtidas das Escrituras. No que se refere a Deus, ele admite que o Senhor é o soberano sobre a criação, sobre a história e sobre a salvação e que, de fato, Ele exerce essa soberania de forma absoluta. Especificamente sobre a salvação, ele afirma que, estando o homem completamente corrompido, Deus elegeu soberana e graciosamente alguns dentre eles e enviou Seu Filho para resgatá-los e o Espírito para regenerá-los, guardando-os com mãos poderosas até o fim. É nisto que crê um pentecostal que confessa ser calvinista.

Autor: Clóvis Gonçalves

Fonte: Napec
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