Da Necessidade de Coerência entre Pregação e Vida do Pregador e a sua Incapacidade.

Autor: Alan Rennê Alexandrino

Introdução


Não há tarefa mais importante para um Ministro do Evangelho do que expor as Sagradas Escrituras, a fim de alimentar o rebanho do Supremo Pastor, o Senhor Jesus Cristo. A tradição cristã reformada entende acertadamente que a fiel pregação é a Vox Dei, a voz de Deus falando ao povo da aliança reunido em assembleia solene no dia do Senhor. A Segunda Confissão Helvética, datada de 1562 e escrita por Heinrich Bullinger, em seu primeiro artigo afirma: “A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus”.[i] Tão séria e solene é a tarefa da pregação, que o apóstolo Paulo, escrevendo aos romanos, afirmou: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? [...] E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (10.13-15,17). É pela pregação da Palavra de Deus, como instrumento, que o Espírito Santo regenera o coração do pecador e o traz à fé em Jesus Cristo. Tiago, em sua epístola, afirmou que, segundo o querer de Deus, fomos gerados “pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (1.18).

Dada a magnitude da tarefa da pregação, o presente texto tem o objetivo de refletir, ainda que de maneira superficial, sobre a necessidade de coerência entre a pregação e a vida do pregador, bem como sobre a sua consciente incapacidade de viver o que prega à medida que mais se esforça por ser fiel ao Senhor.


“Você tem de viver aquilo que prega”

Tão grave e séria é a pregação, que a mesma não pode ser efetuada por qualquer um. Não é pregador aquele que, simplesmente, deseja pregar. É preciso ser comissionado e dotado para tal. Dessa perspectiva, como preceitua o Catecismo Maior de Westminster em sua resposta à pergunta 158, “a Palavra de Deus deve ser pregada somente por aqueles que têm dons suficientes, e são devidamente aprovados e chamados para o ministério”.[ii] Da perspectiva moral, a pregação deve ser empreendida por aqueles que são conhecidos por sua piedade, seriedade e zelo na vida cristã. Alguém caracterizado por escândalos e por uma vida notadamente desenfreada não deve ser chamado a pregar as Sagradas Escrituras. Há a premente necessidade de que o pregador seja alguém piedoso e sério em seu proceder. Escrevendo ao seu jovem pupilo Timóteo, o apóstolo Paulo afirmou a importância da coerência entre a Palavra pregada e a vida piedosa do pregador: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1Timóteo 4.12). Em outra ocasião, Paulo deu o seguinte conselho a Timóteo: “Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o nome do Senhor” (2Timóteo 2.22). Timóteo deveria ter o devido cuidado para que a sua pouca idade não fosse usada como motivo para que a igreja o desprezasse e ao seu ensino. Certamente, abster-se daquelas que caracterizavam as paixões da mocidade o ajudaria, e muito, no cumprimento dessa tarefa. Além disso, o jovem pastor Timóteo tinha o dever de se tornar o “tipo” (τύπος), o padrão, o exemplo dos fiéis. Era necessária a harmonia entre pregação e vida, de modo que Timóteo pudesse se apresentar diante da igreja de Éfeso como um exemplo digno de ser imitado.

O dever do pregador de ser exemplo e de “viver o que prega” é algo que perpassa todas as eras, não se limitando apenas ao primeiro século. Timóteo não era o único a ter de atentar a isso. Todo pregador do evangelho deve andar dessa forma. O Pr. Joel Beeke se expressa nestes termos: “Nossa doutrina deve dirigir nossa vida, e nossa vida deve adornar nossa doutrina. Como pregadores, devemos viver o que pregamos e ensinamos”.[iii] São também pertinentes as afirmações do puritano John Owen e do pastor escocês Robert Murray McCheyne. O primeiro disse o seguinte: “Se um homem ensina corretamente e anda tortuosamente, se prostrará mais na noite de sua vida do que edificará no dia de sua doutrina”.[iv] Já McCheyne enunciou uma das frases mais conhecidas a este respeito: “A vida de um pregador é a vida de seu ministério... Em grande medida, segundo a pureza e perfeições do instrumento, assim será o sucesso. Não é tanto aos grandes talentos que Deus abençoa, quanto à semelhança com Jesus. Um ministro santo é uma terrível arma nas mãos de Deus”.[v]

Inegavelmente, quando um homem ocupa o púlpito e prega uma mensagem eloquente, concatenada, com uma excelente exegese da passagem, mas, sabidamente, tal pregador vive em hipocrisia, isso se constitui num grave pecado. O puritano Richard Baxter afirmou o seguinte sobre aqueles que pregam contra os exatos pecados que cometem: “É triste pormos a nossa igreja a dormir com a nossa prédica, mas é trágico pôr-nos a nós mesmos a dormir. Quão terrível é quando falamos tão longamente contra a dureza de coração dos ouvintes, e, contudo, ficamos endurecidos e surdos ao ruído das nossas próprias repreensões!”[vi] Em outro lugar Baxter diz que os pregadores devem cuidar de si mesmos, uma vez que os seus pecados possuem mais agravantes que os pecados dos outros homens.[vii] Quais são esses agravantes? O próprio Baxter responde:

(1) Você, mais do que os outros, peca contra o conhecimento porque você possui mais do que eles. Pelo menos, você peca contra mais luz, ou contra meios de conhecimento [...] (2) Seus pecados são mais hipócritas que os dos outros homens, por causa de como você fala contra tais pecados [...] (3) Seus pecados são mais traiçoeiros que os dos outros homens, por causa de como você tem engajado a si mesmo contra eles.[viii]

Baxter conclui a sua exortação com os seguintes questionamentos:

Com que frequência você tem proclamado o mal e o perigo do pecado e chamado pecadores a se voltarem dele? Com que frequência você o denunciou contra os terrores do Senhor? Seguramente, tudo isso implica que você o renunciou em si mesmo. Cada sermão que você prega contra ele, cada exortação, cada confissão dele na congregação se estabelecem como um compromisso, feito por você, de renunciá-lo. Cada criança que você batizou, e cada administração da Ceia do Senhor implicam na sua própria renúncia do mundo e da carne, bem como do seu compromisso com Cristo. Quão frequente, e quão abertamente, você testemunhou da natureza odiosa e abominável do pecado? E, ainda assim, você ainda se delicia nele, apesar de todas essas profissões e testemunhos dados por você? Oh! Que traição é fazer um rebuliço contra o pecado no púlpito e, depois de tudo, entretê-lo no coração, e dar-lhe o lugar que é devido a Deus, e ainda preferi-lo em vez da glória dos santos![ix]

“Eu Tento! Mas Não Consigo!”

Não há dúvida ou disputa alguma acerca da enorme necessidade de uma vida piedosa da parte do pregador ou, como se diz, que ele viva o que prega no púlpito. Não obstante, há ainda outra questão que deve ser considerada, que é a incapacidade do pregador de viver com perfeição aquilo que é anunciado por ele no púlpito. É a minha convicção particular que, não importa o quanto o pregador se esforce para viver uma vida piedosa, ele nunca viverá aquilo que prega. Com isso não estou querendo apresentar uma justificativa para que o pregador ou o Ministro do Evangelho deixe de cuidar de si mesmo e de lutar pela sua santificação pregando para si próprio e fazendo o devido uso dos meios de graça que Deus disponibiliza. Como penso já ter deixado claro no início da seção anterior, é imprescindível que hipócritas e homens conhecidos e marcados por maus hábitos sejam mantidos longe do púlpito.

O ponto que desejo salientar diz respeito à convicção que o próprio pregador deve possuir da sua incapacidade e do quanto do pecado interior ele ainda precisa mortificar, a fim de corresponder ao padrão apresentado pelas Sagradas Escrituras. Em minha própria experiência, a preparação de cada sermão é uma experiência extremamente humilhante. Recentemente fiz a exposição do Salmo 1 e ao refletir sobre como o Senhor Jesus Cristo é o homem justo do salmo, de como ele se absteve do pecado, de como ele amou e demonstrou grande zelo pela meditação na Palavra de Deus e de como ele foi como uma árvore frutífera cujo fruto produzido foi inteiramente do agrado do Pai, a minha oração foi “Senhor, tenha misericórdia de mim!” Ao expor Efésios 5.22-33 e observar o amor sacrificial de Jesus pela Igreja e a obrigação correspondente do marido de amar a sua esposa, minha reação é unicamente suspirar diante do Senhor, expressando o meu anelo de que ele me ajude nessa tarefa.

Recentemente me deparei com a expressão do mesmo sentimento por parte do Dr. R. C. Sproul. Falando sobre a experiência do profeta Isaías ao ver o Senhor assentado em seu trono e sendo adorado pelos serafins, Sproul diz o seguinte:

Todos pregadores são vulneráveis à acusação de hipocrisia. Na verdade, quanto mais fiéis à Palavra de Deus os pregadores forem, mais passíveis de tal acusação serão. Por quê? Porque quanto mais as pessoas forem fiéis à Palavra de Deus, mais elevada será a mensagem que pregarão. Quanto mais elevada a mensagem, mais distante estarão de obedecê-la. Eu tremo quando falo nas igrejas sobre a santidade de Deus. Posso antecipar as respostas das pessoas. Elas deixam o santuário convencidas de que estiveram na presença de um homem santo. Porque me ouviram pregar sobre santidade, elas assumem que devo ser tão santo quanto a mensagem que prego. É aí que clamo “ai de mim”! É perigoso assumir que porque uma pessoa é atraída a estudar a santidade, então ela é uma pessoa santa. Há aqui uma ironia. Estou certo de que a razão pela qual tenho um desejo profundo de aprender sobre a santidade de Deus é precisamente porque não sou santo. Sou um homem profano. Mas provei o suficiente da majestade de Deus para querer mais. Sei o que significa ser perdoado e ser enviado em uma missão. Minha alma clama por mais.[x]

O sentimento do Dr. Sproul é o meu sentimento. E é justamente por causa de quem eu sou que necessito pregar, primeiramente, a mim mesmo, a fim de poder pregar a outros. Todas as vezes em que subo no púlpito e prego as Escrituras não ajo como alguém impecável ou perfeito. Prego como um pecador que experimentou a doçura da Palavra, do conforto e das advertências vindos de Deus e que, portanto, entende que a sua congregação possui a mesma necessidade.

Um Pensamento Final

Por todo o arrazoado acima entendo muito bem quando alguém afirma que o pregador precisa “viver aquilo que prega”. Entendo que o verdadeiro mal está em ser um hipócrita e dissimulador, alguém que conscientemente anuncia ao povo aquilo que ele mesmo não pratica e nem possui o desejo de praticar. Não obstante, com relativa frequência o moto “Ele não vive o que prega!” é usado como uma espécie de justificativa deliberada para não se dobrar diante das exigências de Deus em sua santa Palavra.

É preciso que compreendamos que, independentemente do caráter do pregador a Palavra de Deus é a Verdade. Assim, mesmo que o pregador seja um flagrante hipócrita e dissimulado, caso a sua pregação esteja de acordo com aquilo que as Escrituras realmente ensinam, ninguém possui a permissão de não obedecer ao que Deus exige. Embora a vida piedosa do pregador seja importante e, por assim dizer, funcione como uma joia que adorna a exposição, a verdade não depende dela. A verdade por si só se autentica. A Palavra de Deus, em si mesma, é inspirada, inerrante, infalível e também autoritativa. Ela deve ser obedecida mesmo quando o pregador for um hipócrita desprezível. Da mesma forma como nem mesmo um anjo vindo do céu tem a permissão de pregar um evangelho falso, a igreja não tem permissão para desconsiderar a verdade dita por um impostor. É o que diz a Segunda Confissão Helvética no artigo já citado:

Portanto, quando a Palavra de Deus é pregada atualmente na igreja por pregadores legitimamente vocacionados, nós cremos que a própria Palavra de Deus é anunciada e recebida pelos fiéis; e que nenhuma outra Palavra de Deus pode ser inventada, nem esperada que venha dos céus: e que hoje o que deve ser considerado é a própria Palavra anunciada, e não o ministro que a prega, pois, embora este seja mau e pecador, contudo a Palavra de Deus permanece boa e verdadeira.[xi]

A minha súplica ao Senhor é que ele nos ajude a unirmos as duas coisas: exposição fiel das Escrituras e vida piedosa. Nas palavras do Pr. Joel Beeke: “Como ministros, devemos buscar a graça de edificar a casa de Deus com ambas as mãos – a mão da sã pregação e doutrina, e a mão de um coração santificado”.[xii] Amém, Pr. Beeke! Amém!

Autor: Alan Rennê Alexandrino


[ii] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. In: Símbolos de Fé. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. p. 198.

[iii] Joel R. Beeke. Espiritualidade Reformada: Uma Teologia Prática para a Devoção a Deus.São José dos Campos: Fiel, 2014. p. 336.

[iv] Ibid.

[v] Ibid. pp. 336-337.

[vi] Richard Baxter. O Pastor Aprovado. São Paulo: PES, 1996. p. 70.

[vii] Richard Baxter. “The Reformed Pastor”. In: The Works of Richard Baxter. Posição 7990. Edição Kindle.

[viii] Ibid. Posição 7990-8014. Edição Kindle.

[ix] Ibid. Posição 8014. Edição Kindle.

[x] R. C. Sproul. Deus É Santo: Como Posso me Aproximar Dele? São José dos Campos: Fiel, 2014. pp. 32-33.

[xi] A SEGUNDA CONFISSÃO HELVÉTICA. In: Joel R. Beeke e Sinclair B. Ferguson. Harmonia das Confissões Reformadas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 12. Ênfase acrescentada.

[xii] Joel R. Beeke. Espiritualidade Reformada: Uma Teologia Prática para a Devoção a Deus.p. 336.

Fonte: Electus
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