Jesus foi tentado pelo diabo?

A muita gente custa-lhe aceitar que Jesus tenha sido tentado pelo diabo. E no fundo é porque considera a tentação como algo desonroso para a pessoa, como uma fraqueza, uma deficiência. Como se ela fosse coisa de pecadores, e não de santos. Mas, realmente, não é assim. 
Jesus tentado no deserto (Mt 4,1-11)

Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães.» Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» Então, o diabo conduziu-o à cidade santa e, colocando-o sobre o pináculo do templo, disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!» Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no. (ver Mc 1,12-13; Lc 4,1-13)

Nem boas, nem más

A tentação nem é boa nem é má. É simplesmente inevitável. Qualquer pessoa humana tem tentações, uma vez que, tendo sido criada livre, sempre se lhe hão-de apresentar pela frente dois caminhos, duas possibilidades de agir, das quais, geralmente uma é boa e a outra é má. Esta dualidade de horizontes constitui a tentação. Se a pessoa escolher a via correcta, cresce e amadurece; se optar pela errada, vai denegrir-se. Mas a tentação, em si, não tem moralidade. Passa a ser boa ou má conforme a decisão que cada indivíduo tenha tomado perante ela. Não é possível viver sem tentações. Se alguém não as tiver, deveríamos supô-lo automaticamente desumanizado, uma vez que não apareceriam os desafios à sua liberdade. Uma pessoa sem tentação seria tão anormal, que não pertenceria à categoria dos seres humanos.

Uma vez só, é fácil 

A Bíblia afirma que Jesus era verdadeiro homem, em tudo semelhante aos outros homens (Heb 2,17). Que «sofreu e teve tentações» (Heb 2,18). E que Ele «pôde entender a nossa debilidade pois teve as mesmas tentações que nós, só que nunca pecou» (Heb 4,15). Mas, as tentações que aconteceram a Jesus, segundo o evangelho, são raríssimas. Como poderemos dizer que são iguais às nossas? Em primeiro lugar, estranhamente o diabo aparece de um modo frontal, sem camuflagens nem máscaras, o qual contradiz a forma habitual com que é costume representá-lo. E assim, a cara descoberta, convida-o a pecar. Em segundo lugar, aparece-lhe uma só vez em toda a sua vida, no fim de um jejum de 40 dias no deserto; desafia-o, e, ao ser derrotado, vai e nunca mais volta durante o seu ministério. Quão diferente de nós, que sofremos o aguilhão das tentações todos os dias!

Com transporte incluído

Como se estas tentações não fossem já suficientemente insólitas, Jesus ainda nos aparece, de um modo estranho em cenários diferentes. A primeira tentação, por exemplo, tem lugar no deserto. Mas, para a segunda, o diabo translada-o pessoalmente ao Templo de Jerusalém (Mt 4,5). Como o transportou? Erguendo-o? Voando? Isto exigiria aceitar que o diabo realizou um milagre impressionante. Aonde foi ele buscar o poder para fazer milagres, quando a tradição bíblica sustém que só Javé pode fazê-los? (Sl 72,18; 86,10; 136,4). Na terceira, o diabo é apresentado levando Jesus a um monte alto, donde lhe mostra todos os reinos e países do mundo (Mt 4,8). Existe na terra esta extraordinária montanha, donde se possa contemplar semelhante espectáculo? E como pôde Jesus permanecer quarenta dias no deserto sem comer e sobretudo sem beber? A desidratação não perdoa a ninguém. A menos que Jesus tenha feito um milagre para não sofrê-la; mas então, que sentido tinha o seu jejum? Teria sido uma mera burla. Finalmente, como é que os discípulos tiveram conhecimento deste duelo no deserto? Contaria Jesus estas intimidades pessoais?

Teve-as permanentemente

Tudo isto convida a supor que, embora Jesus tivesse tentações durante a sua vida, a forma como estão contadas aqui não é histórica. Trata-se, antes, de uma criação literária dos evangelistas, com a finalidade de transmitir um ensinamento religioso, una ideia válida para a vida dos crentes, que tropeçam com as suas tentações no deserto da vida.

Em primeiro lugar, Jesus teve tentações não apenas um dia, mas todos os dias da sua vida. Ele mesmo disse uma vez aos seus apóstolos: «Vós sois os que permaneceram sempre junto de mim nas minhas provações, e eu disponho do Reino a vosso favor, como meu Pai dispõe dele a vosso favor» (Lc 22,28-29). Em que provações o acompanharam os seus apóstolos? Não certamente nas do deserto, onde aparece só, mas ao longo da sua vida pública.

Com efeito, pelos evangelhos sabemos que quiseram tentar Jesus muitas vezes. Como quando «se aproximaram dele os fariseus e saduceus para tentá-lo e lhe pediram um sinal no céu» (Mt 16,1). Ou quando lhe perguntaram «para tentá-lo: “Pode alguém por qualquer motivo divorciar-se da sua mulher?”» (Mt 19,3). Ou quando Ele respondeu aos que o interrogavam se se devia pagar os impostos, ou não: «Hipócritas! Porque me tentais?» (Mt 22,18). Ou no dia em que lhe trouxeram uma mulher surpreendida em adultério, «para tentá-lo» (Jo 8,6).

Três, porquê? 

Como se vê, a vida de Jesus esteve atolada de tentações. Mas os autores bíblicos quiserem resumi-las apenas em três porque este é um número simbólico que aparece muitas vezes na Bíblia com o sentido de “totalidade”. Tal simbolismo talvez lhe venha do facto de serem três as dimensões do tempo: passado, presente e futuro. Portanto, dizer “três” é, de certo modo, dizer “sempre” ou “tudo”. Por exemplo, os três filhos de Noé (Gn 6,10) representam a totalidade dos seus descendentes. E as três vezes que Pedro negou a Jesus (Mt 26,34) simbolizam a totalidade das vezes em que lhe foi infiel. As três tentações do Senhor reflectem, assim, todas as vezes que Ele esteve exposto a elas durante a sua vida.

Antigas tentações, para o novo povo 

Porque terão os evangelistas escolhido essas três tentações? Aí está a chave e o segredo de todo o relato! Escolheram-nas para traçar um paralelismo com o que sucedeu com o povo de Israel após a saída do Egipto. Segundo o Antigo Testamento, depois de atravessarem prodigiosamente o Mar Vermelho (Ex 14, 15-31), os israelitas entraram no deserto (Ex 15,22), conduzidos pelo Espírito do Senhor (Is 63,13-14). Ali permaneceram 40 anos (Nm 31,13) e sofreram principalmente três tentações.

Tendo em conta estes detalhes, os autores bíblicos apresentam Jesus como o novo povo de Israel, que veio substituir o antigo. Por isso, todos os pormenores voltam a repetir-se: Jesus, depois de atravessar com prodígios as águas do Jordão ao ser baptizado (Mt 3,13-17), entra no deserto durante 40 dias (Mt 4,1), conduzido pelo Espírito do Senhor, onde teve três tentações (Mt 4,1-11; Lc 4,1-13).

E porque motivo Jesus vem substituir o antigo Israel? Porque este tinha fracassado. Cada vez que tinha tido tentações no deserto, tinha saído derrotado. Ao contrário, Jesus sai vitorioso dessas mesmas tentações. Por isso agora Ele forma o novo povo, a nova raça de homens, e pode realizar o programa libertador confiado por Deus ao antigo Israel, o qual não tinha podido levá-lo à prática devido à sua infidelidade.

A tentação do deserto 

Assim, segundo os evangelistas, a primeira tentação de Jesus tem por cenário o deserto. Ali, os escritores imaginam que Ele, após 40 dias sem comer, sente fome e o tentador o incita a deixar o seu plano de jejum e converter as pedras em pão. Ora bem, o povo de Israel teve a mesma experiência. Depois de sair da escravidão do Egipto e entrar na liberdade do deserto, durante 40 anos experimentou uma fome parecida. Perante a escassez de alimento, o povo caiu na tentação. Revoltou-se contra Moisés, desejou poderes especiais para fazer aparecer alimento, e até chegou a desejar ter poder para voltar para a escravidão do Egipto, onde comia bem (Ex 16). Muitos anos depois, Moisés havia de lhes atirar esta fraqueza à cara, dizendo-lhes que deveriam ter pensado que não só de pão vive o homem, mas também de tudo o que sai da boca do Senhor (Dt 8,3). Mas, quando lhe sobreveio essa mesma tentação, Jesus negou-se a usar os seus poderes especiais em benefício próprio; e, recordando aquelas palavras de Moisés, apresentou-as ao diabo e derrotou-o.

A tentação do pináculo 

O segundo encontro entre Jesus e o diabo tem lugar, segundo Mateus, no tecto de uma das galerias do Templo, sobre um precipício com mais de 100 metros que dava para o rio Cédron. Ali é convidado a atirar-se para o vácuo, para provar que Deus cuida sempre dele e não permite que lhe suceda qualquer mal. E, entretanto, realizará um milagre maravilhoso… Também Israel tinha passado por uma situação parecida. Na localidade de Massá, no deserto, tinha faltado a água. Sabiam que Javé estava com eles e nunca os abandonava. Mas para prová-lo e ver se era certo que Deus não permitiria que nada lhe acontecesse, exigiram a Moisés que fizesse aparecer água com um sinal maravilhoso. Caíram na tentação de usar a Deus. E apesar disso, Deus fez-lhes o milagre, sem mais (Ex 17,1-7). Mas Moisés, recordando este episódio, anos mais tarde repreendeu-os: «Nunca mais voltem a tentar a Deus» (Dt 6,16). Agora era Jesus quem tinha esta mesma tentação: pôr Deus à prova, atirando-se do tecto abaixo para ver se era certo que Deus sempre estava com Ele. Mas o Senhor, recordando outra vez o conselho de Moisés, voltou a citá-lo ao diabo para o vencer.

A tentação do monte

A terceira vez que Jesus defronta o tentador é num monte muito alto, donde, numa visão imaginária, contempla todos os reinos de então. Desta vez, Satanás vai directamente ao assunto e mostra-lhe a finalidade das suas tentações: abandonar o serviço exclusivo do Pai e converter-se num adorador do diabo, para obter melhores benefícios e riquezas na sua vida. Também Israel teve esta tentação no deserto: abandonar Javé e fabricar para si um ídolo, um bezerro de oiro a quem adorar. E tinha sucumbido à tentação (Ex 32). Com a sua infinita e habitual paciência, Moisés dirigiu um discurso ao povo antes de este entrar na terra prometida, pedindo-lhe que agora não se deixassem tentar pelos outros deuses que ali pudessem encontrar, pois «só a Deus se deve adorar, e unicamente a Ele se deve dar culto» (Dt 6,13). Segundo os evangelistas, Jesus teria vivido esta mesma tentação de adorar a outro além de Deus-Pai. E superou-a novamente com as palavras de Moisés, que lhe serviram de arma vencedora.

Em substituição do vencido

Israel tinha sido derrotado em todas as provas do deserto. Foram tantas as transgressões e os desprezos por Javé, que Deus não pôde engrandecer o povo, como era seu projecto. É certo que este conseguiu instalar-se na terra prometida; mas dali não conseguiu transmitir para toda a humanidade os ares de paz, de amor, de prosperidade que Deus tinha pensado. Não soube ensinar como deve viver um povo com Deus no meio dele. Por isso, os profetas, olhando para o futuro, confiaram que Deus mandaria um Messias com a força suficiente para vencer todas as tentações e transformar em realidade as antigas esperanças do povo.

Com a vinda do Senhor, os evangelistas sugerem que se inaugura um “novo povo de Israel”, formado por Jesus Cristo e os seus seguidores, os cristãos. Estes têm agora a difícil tarefa de recomeçar todos os dias a conquista dessa terra prometida, que agora é o mundo inteiro, e instaurar nele uma nova era de harmonia, de paz e de salvação que o Israel dos patriarcas não tinha podido conseguir. E desta vez será possível, porque o iniciador da tarefa, Jesus, saiu triunfante das provas, e todo aquele que viver unido a Ele pode, doravante, vencer também as tentações. Por isso os autores reuniram as tentações apenas no início da sua vida pública. Para indicar que se alguém se esforçar por vencê-las, fica logo com o caminho livre para o êxito, e tem garantido o triunfo final, como Jesus.

Baseados na sua vida 

Nenhum exegeta sustenta que Jesus foi realmente levado para o deserto, que ali sentiu fome e foi tentado, que depois subiu ao templo de Jerusalém, e terminou no cimo de um monte. Toda esta coreografia é uma criação dos evangelistas a fim de transmitirem um ensinamento. Mas fica ainda a pergunta: Estes relatos das tentações foram totalmente inventados pelos hagiógrafos, ou fundamentaram-se em episódios reais da vida de Jesus? Tudo leva a pensar nesta segunda hipótese.

Com efeito, para a primeira tentação a palavra “pão” dá-nos uma pista sobre quando pode ter sucedido a Jesus. Provavelmente foi no dia em que, confrontado com a fome da multidão, multiplicou os pães (Mc 6,30-44). São João relata que, ao ver o sinal miraculoso que Ele tinha realizado, a gente quis apoderar-se dele para fazê-lo rei a fim de ter sempre alguém que lhe resolvesse as necessidades materiais. Jesus, perante a miséria e a dor da gente, ter-se-ia inclinado a aceitar; mas, ao dar-se conta de que era uma tentação, retirou-se só para a montanha (Jo 6,14-15).

Quem foi o diabo desta primeira tentação? Foi o próprio povo, que o tentava para que continuasse a tirar mais pão do nada, e reduzisse apenas a isso a sua missão.

Também as outras

Quando poderá ter-lhe ocorrido a segunda tentação? O tentador pede-lhe que faça um milagre “a partir de cima, atirando-se para o vazio” para convencer a gente dos seus poderes extraordinários. O diabo desta tentação é muito mais esperto e inteligente que o da primeira, e além disso conhece bem a Bíblia, pois cita-lhe o salmo 91. Também aqui temos uma pista. Sabemos que um dia “se aproximaram dele os fariseus e saduceus, e para o tentarem pediram-lhe que lhes fizesse um sinal no céu», e assim acreditariam definitivamente nele (Mt 16,1). Jesus já pregava há alguns anos, mas a dureza de coração desta gente tinha-a impedido de se converter, e o único que conseguia colher eram burlas. Agora tinha a possibilidade de os confundir com algum milagre prodigioso e tapar-lhes definitivamente a boca. Mas reagiu perante a nova tentação e, «deixando-os, foi-se» (16,4).

Quem foi o tentador, nesta prova? O domínio que tem da Bíblia, dá-nos um indício: alguém que conhece muito bem a religião. De facto, foram as autoridades religiosas que, intrigadas pela actividade que Jesus desenvolvia entre o povo, o desafiaram a que executasse um grande milagre para mostrar até onde chegava o seu poder.

A terceira tentação, a do facilitismo, na qual o diabo lhe propõe conquistar todos os reinos do mundo sem sofrimentos nem sacrifícios, simplesmente adorando-o, sofreu-a Jesus quando Simão Pedro, ao ouvi-lo anunciar a sua futura paixão e sofrimentos, o aconselhou a que não se deixasse matar na cruz, mas que conquistasse o mundo de um modo mais fácil. Jesus, mal o pensou, respondeu-lhe: «Afasta-te da minha vista, Satanás» (Mt 16,21-23).

O diabo, desta vez, foi o próprio apóstolo Pedro.

Modelo a imitar

Jesus foi tentado durante toda a sua vida. Mas a experiência das suas provações foi resumida pelos evangelistas em três tentações. Com isto, pretenderam dizer que também nós seremos tentados toda a vida. Que estejamos preparados para isso. Só a pessoa não comprometida pode vangloriar-se de nunca ser tentada. Pelo contrário, as tentações intensificam-se à medida que alguém se vai aproximando do seu ideal. Mas, sobretudo, quiseram ensinar-nos que se Jesus, como homem, pôde superar as suas tentações, também qualquer pessoa humana pode fazê-lo.

Uma tentação nunca é superior às forças humanas. Ninguém, ao cair, deve dar o pretexto de que a tentação foi mais forte do que ele; pois, de Cristo em diante, os que se deixam guiar pelo Espírito saem sempre vitoriosos. Especialmente se conhecerem a Palavra de Deus, graças à qual, Jesus pôde vencer os embates do diabo.

Depois de tentado na sua humanidade, no I Domingo da Quaresma, no II Jesus aparece transfigurado e resplandecente na sua divindade, para de novo surgir como servo de Javé humilhado e morto (Domingo de Ramos na Paixão do Senhor)… e finalmente ressuscitado e vivo, como Senhor da Comunidade, no Domingo de Páscoa.

Tal é o itinerário cristão que a liturgia da Igreja nos propõe no TEMPO DA QUARESMA EM DIRECÇÃO À PÁSCOA. Sempre no seguimento de Jesus Cristo, nosso Mestre, alternando sofrimento e alegria, cruz e glória. Como na vida. 

Autor:Ariel Valdés Tradução LOPES MORGADO
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